Abas

quinta-feira, 13 de março de 2014

Som vivo.

Viver com ternura é sentir o acumulado nas entranhas como parte do processo. É ouvir o apertar da sanfona. Não o som do fole. Falo do barulhinho das teclas velhas ao serem pressionadas. Saber que nem todo barulho é ruído. Que os sons que vida prega também são mensagem, memória, sinestesia.
Viva o som vivo e habilidoso.
Viva o som que toca.
Toque o som que vive.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Canto nu.

O canto solto no ar.
Amigo do silencio
Dueto infalível

O resto de ar na garganta
O que fica entre as dobras
E escapa pelas pontas
preenchendo intervalos pirracentos
Enfeitando-os de cor.

As onomatopéias sem por quê
Mas cheias de pra quê.

Ah, o canto nu!

Há a explosão!

Júlia Carvalho

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Torre de Papel

Papai e mamãe têm 
cheiro de papel ofício.
O papel de seus ofícios é
trazer papel para nos criar.
Uma vez papai ficou tão possesso
em ter papel que se esqueceu do seu 
papel de nos criar. 

Mamãe oficializou os sábados e domingos
como os dias de descansar.
Então eu e meu irmão fomos criados
pela televisão.
Nenhum de nós fala a mesma língua.

A gente sente saudade de montar na
cacunda de papai, de ir para a casa
de vovó, de receber beijo de mamãe por
um desenho torto.
Com essa vontade de fazer um monte de
papel, eu tenho medo de que a gente não alcance 
o céu.

Hilza de Oliveira

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Hoje é

Hoje pedi habeas corpus pra escrever
meu corpo pedia
e meu nariz coçava como uma calculadora.

Guardei o outro debaixo do braço
e rascunhei com dificuldade
apertando o braço contra o tronco para ele não cair.
Na verdade nem é rascunho
é chave em cadeado
é portão enferrujado
é o ginge do atrito.

Só aperto o lápis contra a folha e ela sangra palavras
e eu acho inútil.
Pra mim.
E pra você principalmente.
Apesar de bom.
Pois sempre concluo
sem conclusão.

domingo, 22 de setembro de 2013

enGULA

Comeu da curiosidade
e foi comida.
Carcomida.
E roída por querer
saber.

Hilza de Oliveira