Abas

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O acho, o mato e o céu.


Acho que nasci pro mato.
Digo "acho" porque tenho medo de cobra.

Dizem que Deus não dá asa a cobra.

Mas se ele tivesse dado, eu teria medo de olhar pro alto.
E também acharia que nasci pro céu.


Júlia Carvalho


(imagem: autor desconhecido)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Gangorra.



Coloca em B# que ela vai escrever.
Tão sustenido quanto o pensamento suspendido,
que mal existe, mal pode ser.

Cercada por palavras alheias que atravessam sem precisar,
Razão besta de ser, tão besta, que mal pode ser.

Pouco pontuda, suave de dar medo.
Tempo estranho pra sonhar
Tão estranho, que nem deveria ser.

Mas se não fosse esse palpável, “sentivel”, a gente sentava sem sentir o vento, e de nada valeria esperar.
Por isso o tempo se move como uma gangorra, tem horas que pende pro passado, tem horas que agacha pro futuro. E só assim pode ser.

Júlia Carvalho.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Som vivo.

Viver com ternura é sentir o acumulado nas entranhas como parte do processo. É ouvir o apertar da sanfona. Não o som do fole. Falo do barulhinho das teclas velhas ao serem pressionadas. Saber que nem todo barulho é ruído. Que os sons que vida prega também são mensagem, memória, sinestesia.
Viva o som vivo e habilidoso.
Viva o som que toca.
Toque o som que vive.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Canto nu.

O canto solto no ar.
Amigo do silencio
Dueto infalível

O resto de ar na garganta
O que fica entre as dobras
E escapa pelas pontas
preenchendo intervalos pirracentos
Enfeitando-os de cor.

As onomatopéias sem por quê
Mas cheias de pra quê.

Ah, o canto nu!

Há a explosão!

Júlia Carvalho

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Torre de Papel

Papai e mamãe têm 
cheiro de papel ofício.
O papel de seus ofícios é
trazer papel para nos criar.
Uma vez papai ficou tão possesso
em ter papel que se esqueceu do seu 
papel de nos criar. 

Mamãe oficializou os sábados e domingos
como os dias de descansar.
Então eu e meu irmão fomos criados
pela televisão.
Nenhum de nós fala a mesma língua.

A gente sente saudade de montar na
cacunda de papai, de ir para a casa
de vovó, de receber beijo de mamãe por
um desenho torto.
Com essa vontade de fazer um monte de
papel, eu tenho medo de que a gente não alcance 
o céu.

Hilza de Oliveira