Abas

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Canto nu.

O canto solto no ar.
Amigo do silencio
Dueto infalível

O resto de ar na garganta
O que fica entre as dobras
E escapa pelas pontas
preenchendo intervalos pirracentos
Enfeitando-os de cor.

As onomatopéias sem por quê
Mas cheias de pra quê.

Ah, o canto nu!

Há a explosão!

Júlia Carvalho

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Torre de Papel

Papai e mamãe têm 
cheiro de papel ofício.
O papel de seus ofícios é
trazer papel para nos criar.
Uma vez papai ficou tão possesso
em ter papel que se esqueceu do seu 
papel de nos criar. 

Mamãe oficializou os sábados e domingos
como os dias de descansar.
Então eu e meu irmão fomos criados
pela televisão.
Nenhum de nós fala a mesma língua.

A gente sente saudade de montar na
cacunda de papai, de ir para a casa
de vovó, de receber beijo de mamãe por
um desenho torto.
Com essa vontade de fazer um monte de
papel, eu tenho medo de que a gente não alcance 
o céu.

Hilza de Oliveira

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Hoje é

Hoje pedi habeas corpus pra escrever
meu corpo pedia
e meu nariz coçava como uma calculadora.

Guardei o outro debaixo do braço
e rascunhei com dificuldade
apertando o braço contra o tronco para ele não cair.
Na verdade nem é rascunho
é chave em cadeado
é portão enferrujado
é o ginge do atrito.

Só aperto o lápis contra a folha e ela sangra palavras
e eu acho inútil.
Pra mim.
E pra você principalmente.
Apesar de bom.
Pois sempre concluo
sem conclusão.

domingo, 22 de setembro de 2013

enGULA

Comeu da curiosidade
e foi comida.
Carcomida.
E roída por querer
saber.

Hilza de Oliveira

sábado, 21 de setembro de 2013

Os trouxas do pano

O capitalismo é um tecido que não se rompe.
E cá estou eu já falando de produto têxtil, veja só.
A gente nasce é nu.
Pelado, pelado.
Aí vem uzômi e põe tanga em nossas vergonhas
— como mal disse Pero.
Uma vergonha é isso tudo.
Roupa a gente usa no frio, que é quando precisa.
Mas aí me vem uzômi querendo introduzir calça jeans
num país tropical e bonito por natureza!
[Pelado, pelado! Nu!]
Onde faz 40ºC durante 365 dias e 365 noites!
É de chorar um dilúvio com um negoço desse...
E toda luta soa vã e ilusória.
Tem gente que tenta dar elasticidade a esse tecido,
de modo alternativo e até um pouco conformado
de que é impossível desatar essas amarras.
Dessa trouxa de pano com todo mundo dentro.
Que trouxas somos nós...
Caímos na história do velho do saco que
prometeu dar doces e nos transformou em sabão.



[Eu acho que esse texto ainda não está lapidado e que merecia uns (muitos) reparos e melhoras, mas vai assim mesmo. Me sinto feliz de ter enxergado o efeito dessas coisas sobre o mundo, de não mais estar alheia ao pensamento sobre elas. A universidade me abriu os sentidos para pensar,  assim como o contato com gente e também a minha própria percepção. Estou feliz, mas estou triste e, assim como Charlie, ando me perguntando como isso é possível.]

Hilza de Oliveira