Abas

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Saga de uma flor


   A garota passeava sobre seus sapatos de laços desamarrados pelo grande jardim, onde as pessoas brotavam, cresciam e se reproduziam como flores. Ela sempre encontrava mães perto dos pântanos segurando suas crianças, via homens cavando a terra com suas raízes violentas e velhos carvalhos contando histórias para as rosas que sentavam à sua volta. Esta pequena menina atendia por Dolores ou Lô, como era chamada por sua mãe. Procurava nesse jardim uma função, ela não sabia se enterrava suas raízes e fazia fotossíntese, como o resto dos moradores dali, ou se partia para plantar suas sementes em outros paraísos. Não entendia como, apesar de todos ali viverem em harmonia, muito felizes e satisfeitos, lhe aconselhavam a partir para longe. O que havia de tão entorpecedor lá fora? O mel das abelhas de lá é mais doce? Há mais sombra e água cor de céu? Dolores olhava para o horizonte todo fim de tarde e olhava o sol se pôr atrás da colina colorida, o que havia lá atras além de um sol guardado? Via-se o clarão subir por detrás da elevação, ela imaginava muitos vaga-lumes dançando o Bolero de Ravel. Vaga-lumes de luz verde, daqueles que moravam dentro do fogão a lenha de sua vó, onde o fogo não queimava, só aquecia. As luzes lhe chamavam, ela ouvia musica sair dali, apesar do vento não soprar muitos ruídos pro lado de cá. A música da colina chamava Lô como uma Iara chama os pescadores pro fundo do mar, não tinha outro modo de ser. Lô arrumou todo seu pólen dentro de suas pétalas e atravessou o portão do seu paraíso, o resto ela ainda não contou a ninguém.

Júlia Carvalho

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Colocando piso, perdoando-se.

Forrar o chão de pedrinhas, pedrinhas brilhantes como se a rua fosse minha, inteira minha. E os passos abrigados, registrados e fossilizados no meu tapete de memorias, ficam iluminados. Ilumina-los e torna-los resquícios de vivencias, de carências, de plenitude e o logo após, o sono. Nada de apertar, julgar e algemar o que passou, pode-se lembrar e ninar toda demência, toda a cega paixão. E quando ela dormir coloque-a no berço da lembrança e perdoa toda a ânsia que um dia te atingiu. É, dormiu...

Júlia Carvalho.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Finjo?

Talvez você tenha sido a primeira pessoa que me instigou de verdade, a primeira que me olhou como alguém que olha. Eu, tentando ser mais eu, primeira pessoa, me vi em você e quem sabe fingi te pertencer. Mas não, não funcionou.
O mundo é grande à alguns quilômetros daqui, você bem sabe, vai ver é por isso que não me acolhe, é uma questão de lógica. Mas nem preciso, sinto que chegou a hora de assumir pro meu ser maltratado que aprendi e entendi que não mais vou me tratar na terceira pessoa. Vou ser mais do meu instinto, no entanto, apertar o cinto e andar segura, constante, olhando as placas. Não preciso sinalizar, blá, basta entrar com segurança, na minha mão, segurando na mão de quem me tem, sem ser refém de nenhum bichinho de orelha.

ps: nunca te amei, assim como nunca achei que te quisesse. Juro.

E foi repentino


Quando eu saí pra viver, eu perdi o medo. Eu fui lá e fiz, eu fui lá e disse olhando nos olhos de quem quer que fosse. Bati o martelo. Os meus segredos tão ocultos esconderam-se tão mais que já nem me lembro deles. Desenhei com traços tortos minhas angústias e parece que elas foram transferidas para o papel porque também não lembro mais. Hoje não quero ficar em casa diante de telas, eu quero ver faces e vida real; eu quero sair. Resolvi assumir minhas culpas, abaixar o tom de voz e melhorar os argumentos. E eu resolvi também ser menos indiferente, dar valor as presenças e preservar o que conquistei. Eu sei lá, eu só sei que mudei. E foi repentino.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Duvidosa, mas conclusão.



Entenda
Não é revolta
Apena estou te olhando com a mão no queixo
Olhando com os olhos de quem finalmente concluiu
Não vou me desculpar, chega disso!
Tenho todo direito de te olhar levantando uma das sobrancelhas
Criaram-me como ser pensante
E, já depois do deslumbramento, te vejo realmente
Você agora nada mais é que alguém com problemas e uma vida pra cuidar
Você deixa de ser dilema e passar a ser normal
Normal como eu nunca quis que fosse
Eu já temia
Enfim, fica na tua e me olha de igual pra igual
Afinal, assim como você
Tenho problemas e uma vida pra cuidar
Despeço-me para mais tarde reler-te
E de novo
Caçar
Tchau.

Júlia Carvalho.